Novo curso de Medicina da UFSM reforça importância dos polos regionais

Novo curso de Medicina da UFSM reforça importância dos polos regionais

Foto: Nathália Schneider (Arquivo/Diário)

A aprovação interna da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para a criação do curso de Medicina no campus de Palmeira das Missões recolocou na agenda regional um debate que atravessa política pública, estrutura hospitalar, interiorização universitária e a própria capacidade do Estado de formar médicos fora dos grandes centros. A decisão do Conselho Universitário (Consu) encerra apenas a fase interna da instituição. Agora, o projeto segue para análise dos ministérios da Educação (MEC) e da Saúde, que farão vistoria técnica no início de 2026. Até lá, nenhuma vaga pode ser aberta, nenhum edital pode ser lançado, nenhuma obra pode avançar. Somente após a chamada “pactuação” com o governo federal, etapa que define recursos, cargos e número definitivo de vagas, é que o curso poderia sair do papel.


+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp 


A mobilização regional, porém, pressiona para que isso aconteça. Prefeituras, hospitais e lideranças do Noroeste gaúcho defendem que a instalação do curso representaria uma inflexão histórica na oferta de serviços de saúde em uma região que ainda depende de deslocamentos longos para atendimentos de média e alta complexidade. O tema retorna um ano após o curso de Medicina da UFSM no campus sede completar 70 anos e a instituição reafirma seu papel como primeira universidade federal criada fora de uma capital no Brasil.


O campus de Palmeira das Missões faz parte dessa trajetória. Criado em 2006, consolidou-se como polo regional na área da saúde e das ciências agrárias, justamente por ter sido estruturado, desde o início, com cursos voltados para essas áreas estratégicas. Hoje, abriga sete cursos de graduação: Administração (diurno e noturno), Enfermagem, Ciências Biológicas, Ciências Econômicas, Nutrição e Zootecnia; e atende 800 estudantes de graduação e 65 de pós-graduação.



Para o reitor Luciano Schuch, o movimento não é apenas administrativo, mas histórico para a UFSM. A criação e aprovação, por parte do Consu, do curso de medicina no campus de Palmeira das Missões, torna-se um simbolismo adicional, em um campus que comemora 20 anos em 2026.

 

– É uma luta da comunidade de lá já de quase 18 anos, porque o campus de Palmeira das Missões nasceu com essa vocação na área da saúde. Se tem alguém que pode garantir a qualidade no curso de medicina naquela região é a UFSM.”


Para sua direção, a chegada do curso de medicina não seria um desvio, mas uma expansão natural dessa vocação. O diretor do campus, Adriano Lago, lembra que essa demanda acompanha o campus desde sua criação, e destaca que a aprovação interna retoma uma articulação antiga.


A partir desse ponto, porém, o andamento deixa de depender apenas da UFSM. Embora a aprovação no Consu seja a última etapa do processo interno, a fase que começa agora é, na prática, a mais determinante. O MEC receberá o projeto, fará análise preliminar dos documentos e enviará ao campus uma equipe técnica, acompanhada por representantes do Ministério da Saúde. Eles avaliarão salas de aula, laboratórios, rede elétrica e lógica, bibliotecas, estruturas de apoio, assistência estudantil, moradia, transporte e todos os critérios exigidos para cursos da área da saúde. Também verificarão a rede hospitalar e os serviços de referência onde os estudantes fariam práticas e internatos. Somente após esse diagnóstico é que se inicia a pactuação, momento em que o MEC define, junto à UFSM, o número final de vagas, os cargos docentes e técnicos que serão liberados, o prazo de execução e, principalmente, os recursos federais que serão destinados para transformar o que está no papel em realidade. 


É diante dessas exigências que o reitor Luciano Schuch afirma que qualquer previsão antes desse processo é apenas estimativa, motivo pelo qual projeta 2027 como o cenário mais otimista, mas admite que isso dependerá de uma cadeia de decisões federais: 


– Primeiro, o semestre de 27 seria uma possibilidade, mas depende agora muito mais do governo federal do que da própria UFSM. A nossa parte a gente já fez.


A dimensão financeira ajuda a explicar o cuidado. O projeto estima cerca de R$ 70 milhões para a implementação do curso, valor que supera, sozinho, todo o investimento histórico do campusde Palmeira das Missões desde sua criação. A cifra contempla a ampliação de salas de aula, adequações estruturais, construção e reforço de laboratórios, aquisição de equipamentos, instalação de nova rede elétrica e lógica, ampliação do Restaurante Universitário, construção de moradia estudantil e compra de veículos para deslocamentos acadêmicos, conforme destaca o diretor do campus.


Entre os investimentos previstos, um dos mais robustos é o laboratório de simulação, orçado em aproximadamente R$ 15 milhões. O valor total deve ser investido ao longo dos primeiros anos do curso, caso a resposta dos ministérios seja positiva. Mesmo assim, Lago pondera que esse movimento só se sustentará com envolvimento regional contínuo e com a consolidação da rede hospitalar que já está em articulação:

– É um importante passo nosso aqui no campus. A ideia de um curso de medicina se apoia no que já foi construído e nas estruturas que estão se fortalecendo na região.


Um curso de medicina fora dos grandes centros

Se, de um lado, a dimensão do investimento mobiliza gestores e lideranças regionais, de outro, envolve também uma discussão nacional sobre abertura de cursos de medicina no Brasil. Em 2024, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou um levantamento que mostra que o país ultrapassou 575 mil médicos ativos, com crescimento acelerado nas últimas décadas. O Rio Grande do Sul, com 3,4 médicos por mil habitantes, está acima da média de países como Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. No entanto, o mesmo estudo indica uma desigualdade estrutural: as capitais concentram 52% dos médicos do país, embora reúnam apenas 23% da população. Nas cidades do interior, a média cai para 1,9 médico por mil habitantes, revelando um desequilíbrio que faz com que regiões como o Noroeste Gaúcho convivam simultaneamente com excesso de médicos nos grandes centros e escassez em áreas menores.


O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), por sua vez, é contrário à criação do curso neste momento. O vice-presidente da entidade, Eduardo Trindade, avalia que não há condições estruturais e assistenciais suficientes para oferecer uma formação adequada:


– Porque Palmeira das Missões infelizmente não tem estrutura e condições nesse momento de fazer um curso de medicina. Não se tem laboratórios. Não se tem hospitais. Não se tem áreas de estágio… Não se tem como. Primeiro, cria-se a estrutura, depois, eventualmente, pode-se pensar em formar médicos.


A visão do Cremers também está associada à crítica à interiorização como política de fixação profissional. Trindade sustenta que abrir cursos em municípios menores não garante que médicos permaneçam na região, além de gerar risco de formação insuficiente quando a rede hospitalar não é robusta. O dirigente cita exemplos de cursos privados abertos em cidades pequenas e alerta para o risco de repetir experiências consideradas fracassadas em termos estruturais e pedagógicos.


Do outro lado da discussão, o campus argumenta que a região construiu, nos últimos anos, uma rede capaz de acolher estudantes e internatos. Lago cita o fortalecimento de serviços em municípios vizinhos e menciona especialidades de residência disponíveis na região:


→ Nós temos pelo menos oito especialidades em residência Médica em Tenente Portela. Entendemos que isso nos possibilita pleitear esse curso. Não estamos prevendo os nossos alunos no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), estamos prevendo nos hospitais da região.


Já no Centro de Ciências da Saúde, a avaliação é mais técnica e foca nos desafios acadêmicos e estruturais envolvidos em replicar um curso de medicina fora da sede. Além da distância entre municípios, a diretora Maria Denise aponta que a rotatividade docente no curso da sede já é alta, e que replicar a estrutura pedagógica para outro campus exigiria atenção redobrada. Ela também ressalta que parte dos cursos da saúde de Palmeira ainda depende de estágios em Santa Maria, algo que exigiria reorganização profunda caso a Medicina seja implantada:


– É uma logística que nos faz pensar e que é bem complexa, no mínimo. Nós já temos um outro curso de medicina na cidade e o nosso hospital universitário também serve para formar os médicos dos dois cursos. Então, acabamos tendo uma demanda de mais estudantes para esperar vagas em campos aqui em Santa Maria, que isso seria bem complicado.


Oferta desigual

Parte dessas preocupações também surge do diagnóstico da rede hospitalar regional. Dados do DataSUS mostram que, embora o Rio Grande do Sul tenha a maior proporção de leitos hospitalares do país, essa oferta é desigual. No Noroeste, a rede é formada principalmente por hospitais de porte médio, com especialidades distribuídas entre cidades vizinhas. O Hospital de Caridade de Palmeira integra a rede local, mas a região ainda depende de estruturas de alta complexidade para procedimentos mais complexos. É justamente esse o papel esperado para o Hospital Público Regional (HPR) de Palmeira das Missões, cuja obra, iniciada em 2019, está paralisada desde 2022 por problemas estruturais. A expectativa é que as obras sejam retomadas somente após nova licitação e avaliação técnica da Universidade de Passo Fundo (UPF). Mesmo em cenário otimista, a previsão de conclusão é 2028.


Apesar disso, a obra do HPR é um dos pilares simbólicos da defesa política do curso. Prefeituras e hospitais da região enviaram cartas de apoio ao projeto, argumentando que a presença de estudantes pode fortalecer a rede de serviços e estimular investimentos. Lago afirma que esse suporte regional foi essencial:


– A gente tem cartas de apoio dos hospitais que serão os que vão acolher os nossos internatos e toda uma gama de municípios oferecendo suas estruturas. Isso mostra que o projeto não nasce isolado, ele nasce a partir de uma demanda regional consolidada.


Próximos passos

A abertura do curso de medicina na UFSM de Palmeira das Missões ainda depende de muitas outras etapas externas. Está previsto, para o início de 2026, uma vistoria do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação in loco, para analisar a infraestrutura do local e a possibilidade de ampliação e construção de novas salas, restaurante universitário e laboratórios. Depois da vistoria, ocorre a pactuação, processo em que o MEC confirma o número de vagas, libera cargos docentes e técnicos, define recursos orçamentários e estabelece o cronograma de execução. Se a vistoria federal ocorrer em 2026 e o processo avançar sem interrupções, a previsão mais otimista aponta abertura possível entre 2027 e 2028.


Confira a nota divulgada pelo Cremers sobre a criação do novo curso:

"A decisão da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) de criar um curso de Medicina em Palmeira das Missões revela um movimento muito mais político do que técnico, contrariando frontalmente os requisitos legais, estruturais e acadêmicos que norteiam a formação médica no Brasil.
O próprio Colegiado do Curso de Medicina da UFSM, em parecer oficial, classificou a proposta como “inadequada, irregular e impraticável” — apontando falhas graves de infraestrutura, ausência de hospital de ensino certificado, inexistência de programas de residência médica suficientes e inviabilidade prática dos campos de estágio.
Não há hospitais de alta complexidade na região; não há corpo docente em número minimamente próximo do necessário; não há capacidade instalada para sustentar a intensa carga de práticas exigida pelas Diretrizes Curriculares Nacionais. O próprio anteprojeto admite que outros cursos do campus precisam enviar alunos a Santa Maria para concluir atividades práticas — algo impossível para Medicina, que enfrenta limitações estruturais mesmo na sede.
Além disso, a justificativa recorrente de que abrir escolas médicas no interior garantiria a fixação de médicos não encontra respaldo em qualquer evidência robusta. Profissionais se fixam onde há estrutura, condições de trabalho, residência médica e perspectiva de carreira — nada disso está assegurado na proposta apresentada.
Surpreende ainda mais que essa iniciativa parta de uma universidade pública e tradicionalmente reconhecida por sua qualidade, que deveria se pautar por critérios técnicos, e não por decisões de caráter político-populista.
Abrir cursos de Medicina sem condições reais é fabricar diplomas, não formar médicos.
Criar um curso sem hospitais qualificados, sem docentes, sem residência, sem estrutura e sem campos de prática adequados representa risco direto à qualidade da formação e à segurança da população. A política não pode atropelar a técnica, muito menos quando se trata de formação médica — área em que erros custam vidas.

Dr. Eduardo Neubarth Trindade
Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers)"


Curso de Direito no campus da UFSM em Frederico Westphalen 

O Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (SERES), autorizou oficialmente a implantação do curso de Direito (bacharelado), no campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em Frederico Westphalen. A autorização consta na Portaria SERES/MEC nº 960, de 22 de dezembro de 2025, publicada no Diário Oficial da União no dia 23 de dezembro.


​O curso será ofertado na modalidade presencial, em turno noturno, com 30 vagas anuais. Com a publicação da Portaria, a UFSM passa à próxima etapa do processo, que consiste na liberação de vagas para concurso docente, passo fundamental para a efetiva implantação do curso e posterior abertura de processo seletivo para ingresso de estudantes.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Santa Maria amplia número de medalhas e conquista 6 ouros na Olimpíada de Matemática Anterior

Santa Maria amplia número de medalhas e conquista 6 ouros na Olimpíada de Matemática

Escolas públicas de Santa Maria se adaptam à lei que proíbe sinais sonoros estridentes Próximo

Escolas públicas de Santa Maria se adaptam à lei que proíbe sinais sonoros estridentes

Educação